Azzas 2154 vai se dividir: o que a separação de Arezzo e Soma ensina sobre governança nas empresas

Florian Vercourt
Por Florian Vercourt
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Azzas 2154 vai se dividir: o que a separação de Arezzo e Soma ensina sobre governança nas empresas

Reorganização anunciada após conflitos entre acionistas mostra como governança, foco estratégico e estrutura societária podem afetar o futuro de uma companhia.

A decisão da Azzas 2154 de separar novamente os negócios que haviam sido unidos em uma grande companhia de moda colocou um tema que interessa a empresas de todos os tamanhos no centro do debate: até que ponto problemas de governança podem comprometer uma estratégia empresarial? O acordo anunciado em 2 de setembro prevê a reorganização da companhia em duas empresas abertas independentes, Arezzo&Co e SOMA, além de uma estrutura específica para a FARM Rio. A operação ocorre cerca de dois anos depois da fusão que originou a Azzas 2154 e encerra uma série de divergências entre os acionistas de referência Alexandre Birman e Roberto Jatahy. Para gestores e empresários, o caso oferece uma oportunidade de observar algo que vai muito além do varejo de moda. Quando sócios deixam de concordar sobre governança, prioridades e execução, a estrutura de uma empresa pode se tornar parte do próprio problema. A pergunta, portanto, é: quando separar uma empresa pode ser uma decisão melhor do que insistir em uma integração?

Por que uma empresa decide desfazer uma fusão

A Azzas 2154 nasceu em 2024 a partir da combinação entre Arezzo&Co e Grupo Soma, criando um dos maiores grupos brasileiros de moda. A ideia de uma fusão desse porte normalmente está relacionada à possibilidade de obter ganhos de escala, ampliar portfólio, compartilhar estruturas e aumentar a capacidade competitiva. Na prática, porém, juntar empresas não significa automaticamente juntar culturas, processos, estratégias e modelos de gestão. O acordo anunciado agora prevê uma cisão parcial dos negócios e, posteriormente, uma permuta de ações entre os blocos de controle, permitindo que Arezzo&Co e SOMA tenham administrações e estratégias próprias. A expectativa é concluir a reorganização no primeiro trimestre de 2027, mas a operação ainda depende de aprovações societárias, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da listagem da SOMA no Novo Mercado da B3.

Para um empresário que não administra uma companhia listada em bolsa, a lição é igualmente relevante. Uma sociedade pode começar pequena, crescer rapidamente e chegar a um momento em que os sócios tenham visões muito diferentes sobre contratação, investimentos, distribuição de lucros, expansão ou posicionamento de mercado. Se essas divergências não forem tratadas por mecanismos claros de governança, decisões importantes podem ficar mais lentas e conflitos pessoais podem contaminar a operação. No caso da Azzas, analistas consultados pela Reuters avaliaram que a separação pode reduzir riscos de governança provocados pelo conflito entre os grupos controladores e permitir que cada negócio concentre sua execução em uma estratégia mais específica. A valorização das ações após o anúncio também mostrou que parte do mercado interpretou a reorganização como uma tentativa de reduzir incertezas.

O que a governança empresarial tem a ver com crescimento

Governança corporativa não é um conceito reservado a grandes companhias ou investidores. Em uma pequena e média empresa, ela aparece em decisões aparentemente simples: quem pode autorizar despesas, como os sócios tomam decisões, quais informações financeiras todos recebem, quem acompanha indicadores e o que acontece quando os proprietários discordam. O Sebrae destaca a importância de organizar processos, responsabilidades e informações para melhorar a gestão dos pequenos negócios. Quanto maior a empresa, maior tende a ser a necessidade de transformar acordos informais em regras, indicadores e responsabilidades claramente definidos. Sem isso, o crescimento pode aumentar justamente os problemas que antes eram resolvidos de maneira improvisada.

O caso da Azzas também demonstra que uma estrutura empresarial complexa pode dificultar a execução quando diferentes negócios precisam de prioridades muito distintas. Arezzo&Co deverá concentrar marcas como Arezzo, Schutz, Anacapri, Vans, Alexandre Birman, Carol Bassi e Hering, enquanto a SOMA reunirá operações como Animale, NV, Maria Filó, Cris Barros, Reserva, Oficina e Foxton. A FARM Rio ficará em uma sociedade específica, na qual Arezzo&Co terá 57,4% e SOMA, 42,6%, com gestão e governança próprias. Para gestores, isso mostra uma questão estratégica importante: diversificação pode ampliar oportunidades, mas também pode aumentar a complexidade da tomada de decisão, principalmente quando diferentes unidades possuem públicos, margens, canais e ritmos de crescimento distintos.

Quando separar negócios pode ser uma estratégia

A separação de uma empresa não deve ser interpretada automaticamente como sinal de fracasso. Em determinadas situações, uma cisão pode permitir que negócios diferentes tenham estruturas de gestão mais adequadas às próprias características, tornando mais clara a responsabilidade dos executivos e facilitando a definição de prioridades. No caso da Azzas, os dois grupos de acionistas afirmaram que o novo formato pretende criar companhias mais simples, com estratégias e estruturas de governança próprias. A operação também prevê que os demais acionistas mantenham 67,87% de participação em cada uma das duas novas companhias, sem diluição decorrente da permuta entre os blocos de controle.

Para uma empresa de menor porte, a mesma lógica pode aparecer de maneira diferente. Dois sócios podem perceber que uma unidade de negócio já possui escala suficiente para operar de forma independente, enquanto outra exige capital, gestão ou posicionamento completamente diferentes. Antes de tomar uma decisão desse tipo, entretanto, é necessário avaliar contratos, passivos, tributação, propriedade intelectual, financiamento, funcionários, fornecedores e relacionamento com clientes. Em companhias maiores, uma reorganização ainda precisa passar por instâncias societárias e regulatórias, o que torna o processo mais complexo. O anúncio da Azzas deixa claro justamente esse ponto: a decisão estratégica já foi apresentada, mas sua implementação depende de diversas aprovações antes de produzir a estrutura definitiva.

Há ainda uma lição sobre liderança. Uma empresa pode possuir marcas fortes, escala, capital e profissionais qualificados e, mesmo assim, enfrentar dificuldades quando os principais responsáveis pelas decisões não conseguem alinhar expectativas. A Reuters informou que a disputa entre os acionistas da Azzas vinha afetando a percepção de risco da companhia e que analistas enxergaram na separação uma forma de reduzir o problema de governança. Para empresários, isso reforça a importância de estabelecer desde cedo acordos entre sócios, regras para situações de impasse, critérios para decisões estratégicas e mecanismos para preservar a operação quando surgem divergências.

A reorganização da Azzas 2154 mostra que crescer não significa apenas vender mais, contratar mais pessoas ou abrir novas unidades. Em determinado estágio, a própria arquitetura da empresa passa a influenciar sua capacidade de executar uma estratégia. Uma boa estrutura de governança pode evitar que divergências entre sócios se transformem em problemas operacionais, enquanto uma estrutura inadequada pode dificultar até mesmo a gestão de marcas bem estabelecidas. Para o pequeno empresário, a principal lição é começar a profissionalizar regras e responsabilidades antes que o crescimento torne os conflitos mais caros. No caso da Azzas, a separação ainda depende de aprovações e só deverá ser concluída em 2027, mas o movimento já oferece um estudo de caso sobre como governança, foco estratégico e clareza entre sócios podem determinar os próximos capítulos de uma empresa.

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